ENDEPT
Pêdra Costa

A brief reflection on the queer issue in Brazil

Illustration by uarê

In 2005, in Salvador, I first approached queer theory mainly through Judith Butler’s writings. It was difficult to start reading in English because of an urgency in understanding what was meant by ‘queer’. In 2006 I created the electronic music project Solange, tô aberta! (“I'm open!”) which started as DragPunkFunk, mixing three cultures that, in different ways, have crossed my body: Drag Queen, Punk Anarchist and Baile Funk¹. As I received online feedback from queer communities of the global north, I understood that that project was queer. Many of these people and groups were happily surprised that there was a queer project in Brazil, South America. In 2006, QueerFest had also begun at the now inactive Espaço Impróprio (“Inappropriate Space”) in São Paulo. In 2007, we organized QUEER PUNK QUEER FUNK, an autonomous, anti-hierarchical and counter-cultural three-day event. In early 2008, writing the first twenty pages of my dissertation in the performing arts master degree I never finished, I was raising questions such as these: Where is the queer theory of the south? Why are our experiences not published and circulating? Why is the queer theory not translated into Portuguese? In 2014, Fer Nogueira and I kept asking in our text "Da Porochanchada ao Pós-Porno-Terrorismo no Brasil" (From Pornochanchada² to Post-porn-terrorism in Brazil), now framed in another geopolitical sphere, why our subversive fictions and emancipatory realities have been invisible in the global north. In her works, Hija de Perra, from Chile, always criticized the ‘queer.’ Just as Jota Mombaça, from Brazil, did.³

Queer theory arrives in Brazil in a colonial way, through white cis gay men professors who went to study in the global north. Both through Gay Culture and academic culture: two pillars averse to what the Queer issues potentiate. After all, if "to be queer" or "to flow queer" is post-identitarian and anarchist, how does one frame the ferocity and criticism inherent to the ‘queer’ into the culture of a racist, sexist and classist academic field as well as into gay culture?

Illustration by uarê

In 2011, when I was invited to give a lecture on trans queer at an Iberoamerican performance and political event in Rio de Janeiro, I invited Kamilla Kabaeva, a travesti who had already worked in theater and television but had not succeeded in becoming an actress. I undertook a curatorship inside the curatorship, without warning the curation teams. What a surprise! When they announced my name, Kamilla got up from the audience, came on stage, and I passed her the microphone. She talked about the issues of how her gender identity relegated her only to the place of sex work and not to a place of art in Brazil. All the topics being discussed at the event were being contemplated by her speech. By the time of open-discussions, a person from the audience, speaking Spanish, affirmed that Kamilla was a woman and not queer. I intervened, saying that the queer issue could not be assumed by Brazil and Latin America until travestis, who have ancestrally been at the forefront of sexual guerrilla and gender dissidence, were not recognized.

In Brazil, Jaqueline Gomes de Jesus states that "queer is not for us" and Indianara Siqueira created a new term: ‘Travestigender’. According to her, the word means "a person who is able to transit at anytime they wish, without definitions, yet at the same time chooses the one which affords them the most provisions", and mixes three gender identities: Travesti, Trans and Transgender.

Lastly, without disremembering that the word ‘queer’ began to be academically used in the United States by Gloria Anzaldua, the use of the term in Latin America, in the Global South, remains a field of dispute, a struggle of historically incorporated knowledges against the hegemonic neo-colonization of the Global North.

Illustration by uarê

1. [TN] A music style from Rio de Janeiro, derived from Miami bass and gangsta rap music. (Wikipedia)

2. [TN] Pornochanchada is the name given to a genre of sex comedy films produced in Brazil that was popular from the late 1960s after popularity of commedia sexy all'italiana. (Wikipedia)

3. “To unlearn the queer of the tropics: dismantling the queer caravel.” Text by Jota Mombaça.

4. [TN] We opt to use here the word “travesti” (Brazilian portuguese) for its particular connotation in the original language, as exposed in the article with further details.

Pêdra Costa

Uma breve reflexão da questão queer no Brasil

ilustração por uarê

Em 2005, Em Salvador, eu comecei a ter contato com a teoria queer através principalmente da escrita de Judith Butler. Foi difícil começar a ler em inglês pela urgência de entender a isso que chamavam de queer. Em 2006 criei o projeto de música eletrônica Solange, tô aberta! que começou como DragPunkFunk, mesclando três culturas que atravessavam meu corpo de diferentes formas: Drag Queen, Punk Anarquista e Baile Funk. Ao receber feedbacks online de comunidades queer do norte global, entendi que aquele projeto era queer. Muitas dessas pessoas e grupos ficavam felizmente surpresas por existir um projeto queer no Brasil, na América do Sul. Em 2006 também começam os QueerFest no extinto Espaço Impróprio em São Paulo. Em 2007 fazemos o QUEER PUNK QUEER FUNK¹, um evento autônomo, anti-hierárquico e contracultural de três dias. No início de 2008, ao escrever as primeiras vinte páginas da minha dissertação de mestrado em artes cênicas que eu nunca terminei, eu perguntava: onde está a teoria queer do sul? por que nossas experiências não estão publicadas e circulando? por que a teoria queer não está traduzida ao português? Em 2014 eu e Fer Nogueira em nosso texto “Da pornochanchada ao Pós-Porno-Terrorismo no Brasil”²  continuávamos perguntando, agora em outra geopolítica, o porquê de nossas ficções subversivas e realidades emancipatórias serem invisíveis no norte global. Hija de Perra em suas obras, e a partir do Chile, sempre fazia críticasao queer³. Assim como Jota Mombaça, a partir do Brasil, também o fez⁴.

A teoria queer, ao chegar ao Brasil através de professores brancos homens cis gays que foram estudar no norte global, chega de uma forma colonial. Tanto através da Cultura Gay quanto da cultura acadêmica: dois pilares aversos ao o que as questões queer potencializam. Afinal, se “estar queer” ou “fluir queer” é pós-identitário e anarquista, como enquadrar a ferocidade e a crítica inerentes ao queer no campo do acadêmico e da cultura gay brasileira racista, sexista e classista?

ilustração por uarê

Em 2011, ao ser convidada para dar uma palestra sobre trans queer em um evento ibero-americano de performance e política no Rio de Janeiro, eu convidei Kamilla Kabaeva, uma travesti que já tinha trabalhado no teatro e televisão mas que não tinha conseguido ser atriz. Fiz uma curadoria dentro da curadoria, sem avisar a curadoria. Foi uma surpresa! Quando me anunciaram, Kamilla se levantou do público, veio ao palco, e eu passei o microfone a ela. Ela falou sobre as questões de como sua identidade de gênero travesti a relegava somente ao lugar de trabalho sexual e não a um lugar de arte no Brasil. Todos os tópicos que estavam sendo discutidos ali no evento estavam em sua fala. Na hora da discussão uma pessoa do público, falando espanhol, afirmou que Kamilla era uma mulher e não queer. Eu intervi, dizendo que a questão queer no Brasil e na América Latina não poderia ser assumida enquanto não fossem reconhecidas as travestis que ancestralmente estão à frente da guerrilha sexual e dissidências de gênero.

No Brasil, Jaqueline Gomesde Jesus⁵ falaque “o queer não é pra gente” e Indianara Siqueira⁶ criou um novo termo: Transvestigênere. A palavra significa, de acordo com ela, que é “uma pessoa que pode transitar a todo momento como quiser, sem definições, mas ao mesmo tempo escolhendo a definição que mais lhe provém”, e que mistura três identidades de gênero: Travesti, Trans e Transgênere.

Por fim, sem esquecer que a palavra queer começou a ser usado academicamente nos Estados Unidos por Gloria Anzaldua, a questão do uso do termo na América Latina, no Sul Global, é um campo de disputas, uma luta entre saberes incorporados historicamente contra a neo-colonização hegemônica do Norte Global.

ilustração por uarê

References

1. “O QUEER PUNK QUEER FUNK é um eventoautônomo, anti-hierárquico e contracultural, feito de forma também autônoma,fruto de um trabalho coletivo e de uma criatividade que aflora e pede porrespostas! A intenção é trazer a discussão e a teoria Queer de volta para o seulugar de origem, lugar este que nunca deveria ter abandonado - a rua.Abandonemos , por ora, o conforto e a estrutura das desgastadas organizaçõestradicionais - universidades e centros homossexuais - deixando pra trás o pesode seus costumes enfadonhos e restritos. Teremos o prazer então de abraçarcarinhosamente o velho costume de quebrar as regras, seguir as linhas tortas edar risada dos tristes costumes de uma sociedade hetero-patriarcal-branca-semgraça.” http://queerpunkfunk.blogspot.com

2. “While we listed and discussed worksof art and artists, some fundamental questions about the sudaka condition in Europe persisted: Why is it difficult to find narratives and information aboutpost-pornographic and sexually dissident practices from the Global South? Whydo we have more information about “subcultures” from the so-called “old” worldthan about the histories that took place and continue in us? Why are oursubversive fictions and emancipatory realities invisible? What politics ofinvisibilization continues to act fiercely against aesthetic, sexual, gendered,communal, and social dissent? Who has interest in the mechanisms ofinvisibilization that affect these practices and incendiary subalternnarratives?” From Pornochanchada to Post-Porn Terrorism in Brazil

3. “Interpretaciones inmundas de cómo laTeoría queer coloniza nuestro contexto sudaca, pobre, aspiracional ytercermundista, perturbando con nuevas construcciones genéricas a los humanosencantados con la heteronorma.” Texto da Hija de Perra.

4. “Para desaprender o queer dostrópicos: desmontando a caravela queer.” Texto da Jota Mombaça.

5. Jaqueline Gomes de Jesus é ProfessoraDoutora em Psicologia e ativista dos direitos humanos. Instagram: www.instagram.com/instadajaqueline

6. Indianara Siqueira é ativista e atua atrês décadas em defesa dos direitos das pessoas trans, mulheres e trabalhadorasdo sexo, para ter acesso à moradia, educação e saúde. O documentário INDIANARAque conta a sua vida, teve três exibições em CANNES em 2019. Veja o traileraqui  

Pêdra Costa

Eine kurze Reflexion über das “Queere” in Brasilien

Illustriert von uarê

Im Jahr 2005 stieß ich zum allerersten Mal auf die Queer-Theorie, hauptsächlich durch Judith Butlers Publikationen. Damals war ich in Salvador und es fiel mir besonders schwer,  mit der Lektüre auf Englisch zu beginnen, da ich dringend verstehen musste, was mit "Queer" gemeint war. Im Jahr 2006 gründete ich das Projekt “Solange, tô aberta! ("Solange, bin offen!"), das als DragPunkFunk anfing und dadurch drei Kulturen, die auf unterschiedliche Weise meinen Körper durchkreuzt haben, vermischte: Drag Queen, Punk Anarchist und Baile Funk¹. Als ich Online-Feedbacks von queerer Communities des globalen Nordens erhielt, begriff ich, dass jenes Projekt ‘queer’ war. Viele dieser Menschen und Gruppen waren freudig überrascht, dass es ein queeres Projekt in Südamerika, in Brasilien, gab. Im Jahr 2006 hatte das QueerFest im nun inaktiven Espaço Impróprio ("Unangebrachter Raum") in São Paulo eröffnet. Im Jahr 2007 organisierten wir QUEER PUNK QUEER FUNK, eine autonome, antihierarchische und gegenkulturelle dreitägige Veranstaltung. Anfang 2008, als ich die ersten zwanzig Seiten meiner Dissertation vom Masterstudiengang im Darstellende Künste, welchen ich nie abgeschlossen hatte, schrieb, warf ich folgende Fragen auf: Wo ist die queere Theorie des Südens? Warum werden unsere Erfahrungen weder veröffentlicht noch verbreitet? Warum wird die queere Theorie nicht ins Portugiesische übersetzt? 2014 fragten Fer Nogueira und ich in unserem Text "Da Porochanchada ao Pós-Porno-Terrorismo no Brasil" (Von Pornochanchada² bis zum Post-porn-terrorismus in Brasilien), der auf eine andere Geopolitik basierte, warum unsere subversiven Fiktionen und emanzipatorischen Realitäten im globalen Norden unsichtbar bleiben. Hija de Perra, aus Chile, kritisierte stets in ihren Werken stets das "Queere". Sowie Jota Mombaça³, aus Brasilien.

Illustriert von uarê

Durch weiße cis-Schwule Professoren, die im globalen Norden studierten, kommt die Queer-Theorie auf koloniale Weise in Brasilien an. Sowohl durch die Homosexuellen-Kultur als auch durch die akademische Kultur: zwei Säulen, die sich dem entgegensetzen, was die Queer-Themen an sich potenzieren. Wenn “Queersein" oder "Queerfließen" post-identitär und anarchistisch ist, wie könnte man sowohl die Wildheit als auch die Kritik des Queeres in zwei Kulturen einordnen, nämlich des rassistischen, sexistischen und elitisten akademischen Feldes und der Schwule Kulturszene?

Als ich 2011 eingeladen wurde, bei einer iberoamerikanischen Konferenz bzw. politischen Veranstaltung in Rio de Janeiro einen Vortrag über Trans-Queer zu halten, lud ich Kamilla Kabajewa ein, eine Travesti, die bereits im Theater- und Fernsehenbereich gearbeitet hatte und dennoch ist es ihr doch nicht gelungen, Schauspielerin zu werden. Ich übernahm also ein Kuration innerhalb der offiziellen Kuration, ohne die Kurator*innen zu benachrichtigen. Was für eine Überraschung! Als sie meinen Namen aufgerufen haben, stand Kamilla aus dem Publikum auf, kam auf die Bühne, und ihr reichte ich das Mikrofon. Sie sprach darüber, wie ihre Geschlechtsidentität sie ausschliesslich an den Ort der Sexarbeit und nicht an die Kunst in Brasilien verwies. Alle Themen, die bei der Veranstaltung diskutiert wurden, standen in ihrer Rede. Zum Zeitpunkt der offenen Diskussionen machte eine spanischsprechende Person aus dem Publikum die Aussage, Kamilla sei eine Frau und nicht queer. Ich griff in ihr Gespräch mit der Bemerkung ein, Brasilien und Lateinamerika dürfen für sich das Queere erst reklamieren, wenn ees anerkannt wird, dass Travestis, Vorfahren der sexuellen Guerilla und der Geschlechtsdissidenz, immer an der Front standen.

In Brasilien stellt Jaqueline Gomes de Jesus fest, dass "das Queer nichts für uns ist", und Indianara Siqueira schuf einen neuen Begriff: "Travestigender". Ihr zufolge bedeutet das Wort "eine Person, die in der Lage ist, jederzeit und ohne Definitionen zu durchqueren, und die sich gleichzeitig für dasjenige entscheidet, das ihr am meisten zu bieten hat", und vermischt drei Geschlechtsidentitäten: Travesti, Trans und Transgender.

Schlussfolgernd bleibt die Verwendung des Begriffs “Queer” — der, und das soll nicht vergessen werden, durch Gloria Anzaldua in den Vereinigten Staaten zuerst akademisch verwendet wurde — ein zentraler Streitpunkt in Lateinamerika und im globalen Süden; ein Kampf zwischen historisch verkörpertem Wissen und der hegemonialen Neokolonialisierung des globalen Nordens.

Illustriert von uarê

1. [A.d.Ü] Ein Musikstil aus Rio de Janeiro, von der Bass- und Gangsta-Rap aus Miami abgeleitet. (Wikipedia)

2. [A.d.Ü] Pornochanchada ist die Bezeichnung für ein in Brasilien produziertes Genre von Sexkomödienfilmen, das ab den späten 1960er Jahren nach der Popularität der Commedia sexy all'italiana populär wurde. (Wikipedia)

3. “To unlearn the queer of the tropics: dismantling the queer caravel.” Text by Jota Mombaça.

4. [A.d.Ü] Hier bleiben wir beim Wort "travesti" (brasilianisches Portugiesisch) aufgrund ihrer besonderen Konnotation in der Originalsprache, wie im Artikel mit weiteren Details dargelegt wird.

Pêdra Costa

Pêdra Costa
A ground breaking, formative Brazilian, visual & urban anthropologist and performer based in Berlin that utilizes intimacy to connect with collectivity. They work with their body to create fragmented epistemologies of queer communities within ongoing colonial legacies.
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