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cecília floresta

a mulher-macho

cecília floresta

a mulher-macho

a mulher-macho
andava pela cidade pisando duro
com seu coturno surrado
& de grande número

a mulher-macho
que desbrava ruas & anula
o território do homem
que tudo heteronormativa

tudo menos ela.

até que cientistas
capturam a machona
pra estudos mirabolantes
sobre as possíveis causas
de seu sufixo

prendem numa jaula
a sapata destemida
os cientistas
de bigodes pontudos
alvos jalecos
& canetas esferográficas
cutucam a mulher-macho
que esbraveja
mostra os dentes
sacode as grades
& cerra os punhos

os curiosos agentes
despem as roupas da mulher-macho
e se dão conta de que assim
nua & a base de tranquilizantes
ela se parece até
com suas esposas obedientes

a mulher-macho é adornada
com firulas babados & fru-frus
que julgam exaltar de seu corpo
a feminilidade perdida
pintam-lhe as unhas curtas
os lábios de vermelho
lhe arranjam os cabelos
& lhe perfumam a pele

de longe então
& dentro de uma jaula
qualquer um diria
que a mulher-macho
não passa de uma mulher comum
apesar de certa virilidade
que lhe saltavam aos olhos

após uma semana de coletas
de sangue de amostras
de urina saliva & tecidos
por um cochilo do grisalho
sofrido de insônias terríveis
virago empreende fuga

agora a mulher-macho
adquiriu um novo coturno
& voltou às ruas

um belo exemplar, você diria.

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cecília floresta
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cecília floresta
afrodescende, é escritora, candomblezeira & sapatão. nasceu na capital paulista numa dessas manhãs de dezembro, fazia sol e o ano era 1988. ganha a vida editando livros, pesquisa narrativas e poéticas ancestrais iorubás e seus desdobramentos na diáspora negra contemporânea, lesbianidades e literaturas insurgentes. “poemas crus”, seu primeiro livro, foi publicado pela editora Patuá em 2016.
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